O Comitê do Nobel da Paz acerta

Por: Guillermo Alvarado

Todos os anos, no mês de outubro, são anunciados os ganhadores dos prestigiosos prêmios Nobel. Neste ano vai faltar o de Literatura, mas recebemos com agrado a notícia de que o Nobel da Paz foi dado a dois ativistas contra a prática da violência e o abuso sexual.

Em 2018, não haverá Nobel de Literatura porque o comitê sueco que concede o prêmio foi desagregado por causa de um escândalo sexual. Já a academia norueguesa – responsável pelo Nobel da Paz, o único prêmio que não se entrega em Estocolmo - emitiu um veredito justo, razoável e em concordância com os turbulentos tempos que estamos vivendo.

Foram premiados o doutor Denis Mukwege, da República Democrática do Congo, e a jovem iraquiana, membro da comunidade yizadi, Nadia Murat. Ambos dedicam sua vida a combater o abuso sexual em todas as suas manifestações: arma de guerra, ato de prepotência e desprezo ou maneira de reafirmar a inexistente superioridade de um grupo ou de uma pessoa sobre outras.

Mukwege trabalhou quase a vida toda tratando de sarar as profundas feridas físicas e espirituais de mulheres que sofreram maus tratos nas mãos de grupos armados e denunciando estas atrocidades que se cometem quase diariamente.

É amado por seus pacientes e familiares, e odiado por certos grupos que já atentaram contra sua vida obrigando-o a viajar à Europa para garantir sua segurança. Sua consciência, porém, não permitiu que ficasse por lá e acabou voltando para estar junto às vítimas.

Nadia Murat sendo criança foi sequestrada por grupos do Estado Islâmico e submetida a torturas, violações em massa e vendida como escrava sexual no século 21, quando se poderia pensar que estas práticas já tinham sido ultrapassadas.

Ela decidiu transformar o estigma em dignidade e transferir a vergonha aos culpados. Depois de se restabelecer graças a pessoas amigas que ajudaram tirá-la das mãos dos jihadistas, ergueu sua voz em diferentes fóruns, nas Nações Unidas inclusive, para denunciar as atrocidades dos grupos terroristas contra homens, mulheres e crianças.

Sem dúvida, foi uma decisão acertada da Academia Norueguesa, porque estamos vivendo num mundo que, como dizia Eduardo Galeano, está de pernas para o ar.

Um sujeito, que devia estar preso por delitos graves, acaba de ser nomeado membro da Suprema Corte de Justiça dos Estados Unidos. Estamos falando de Brett Kavanaugh acusado de abuso sexual por várias mulheres, porém, graças ao apoio do presidente Donald Trump agora é membro do Supremo Tribunal.

O próprio chefe da Casa Branca foi denunciado neste sentido, mas nenhuma das denúncias prosperou. E tem mais, quem poderia ser presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, dedicou seu voto ao impeachment contra Dilma Rousseff ao militar que a torturou durante a ditadura.

A Igreja Católica também está envolvida em escândalos deste tipo, portanto a entrega do Prêmio Nobel da Paz a estas duas pessoas é uma gota de alívio num imenso mar de iniquidades.

Editado por Lorena Viñas Rodríguez



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