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O lugar mais esquecido no mundo

G. Alvarado

O Haiti só sai nas manchetes da grande imprensa ocidental quando ocorre um grande desastre, como o terremoto de 2010, ou uma epidemia dizima sua população, ou há um golpe de Estado, tão frequentes por lá e sempre patrocinados por uma potência, normalmente os Estados Unidos.

Com poucas exceções, como a vizinha Cuba que oferece de maneira solidária sua ajuda nas áreas de saúde e educação há décadas, os haitianos costumam travar, sozinhos, suas batalhas diárias contra a pobreza, a fome e a morte. E, a maioria das vezes, são combates estéreis.

Estão abandonados, também, quando decidem enfrentar outros males introduzidos no país pela ingerência estrangeira, como os abusos das autoridades e a corrupção, flagelos que multiplicam a pobreza e a falta de oportunidades.

Ao longo de 2019, aconteceram intensas jornadas de protesto depois de descobrir que um dinheiro destinado ao desenvolvimento social acabou nos bolsos de vários funcionários, entre eles o presidente Jovenel Moise.

No começo do mês de fevereiro passado, um tribunal revelou que perto de dois bilhões de dólares do programa PETROCARIBE - que a Venezuela patrocinava para colaborar com os países da região menos desenvolvidos - acabaram nas contas correntes de gente corrupta.

Dois bilhões de dólares é muito dinheiro em qualquer lugar do mundo, e mais no Haiti, onde falta tudo e 80% de seus habitantes estão mergulhados na pobreza, portanto é compreensível que a população saísse às ruas para exigir a demissão do governo.

As mobilizações de fevereiro forçaram a saída do primeiro-ministro Jean Henry Céant, que foi substituído por Jean Michel Lapin, que também não conseguiu estabilizar a situação, entre outras coisas porque o dinheiro roubado continua sumido.

Após uma trégua, a ira popular voltou às ruas em junho e Lapin foi obrigado a abandonar o cargo, que ocupa agora Fritz-William Michel. Em meados de setembro, os protestos cresceram de novo e receberam como resposta a brutalidade da polícia que provocou dezenas de mortos e centenas de feridos.

Recordemos que no Haiti a ONU manteve até faz uns dias uma “missão de paz” que não serviu para nada.

Esta semana é crucial. Para lá de tributar homenagem e sepultar os mortos - vítimas da repressão - estão previstas ações em nível nacional por ocasião do 213º aniversário do assassinato de Jean-Jacques Dessalines, o líder da revolução que levou o país à independência em 1804.

Deixará o mundo os haitianos mais uma vez sozinhos em sua luta pela justiça social? Continuará sendo esse país o lugar mais esquecido do planeta?

Editado por Lorena Viñas Rodríguez
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