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O Chile quer mais

M.J. Arce

O estado de exceção foi removido, mas o Chile continua mergulhado numa profunda crise social e política cujo estopim foi o anúncio do presidente Sebastián Piñera de subir o preço da passagem do metrô de Santiago, a capital.

A medida prejudicava especialmente os estudantes e estes iniciaram imediatamente os protestos que acabaram se alastrando pelo país e colocaram o governo do multimilionário Sebastián Piñera contra a parede.

Sem dúvida, a antipopular medida tinha sido a gota d’água que fez transbordar o copo. O Chile não conseguiu deixar atrás a época da ditadura militar. Há muitos mecanismos daquela triste e sangrenta etapa que continuam vivos.

Os protestos mostraram o descontentamento dos chilenos com um modelo econômico que acentuou as diferenças sociais e continua beneficiando uma pequena fatia da sociedade.

No centro do debate está esse modelo tantas vezes ressaltado como milagre e até oásis, porém cheio de fendas, que se manteve após a volta à democracia naquele país, embora tenham sido adotadas importantes medidas de benefício social.

Os governos que sucederam a ditadura militar do general Augusto Pinochet introduziram seguros de saúde, de desemprego e melhoras na educação, contudo o neoliberalismo ficou aí com suas privatizações dos serviços básicos que tinha imposto o ditador.

O sistema de aposentadoria é um dos temas mais discutidos nos últimos tempos. É um fundo privado para o qual contribui o trabalhador que, no final de sua vida economicamente ativa, recebe uma miséria, porque depende das flutuações do mercado. É uma das mais controversas políticas implementadas por Pinochet e que continua em vigor.

São muitas as razões que levaram e mantêm os chilenos nas ruas desafiando a repressão e a presença, no começo, dos militares, o que não ocorria nessa nação desde o fim da ditadura em 1990.

Piñera acabou cancelando a subida da passagem do metrô, anunciou uma série de medidas como, por exemplo, o aumento das aposentadorias, e trocou todo seu gabinete, mas nem isso consegue conter os chilenos.

O Chile quer mais. Não se conforma com medidas cosméticas que mantêm vivo um modelo econômico exibido como exemplo de desenvolvimento na América Latina, mas que esconde enormes desigualdades e gera um grande descontentamento popular.

Editado por Lorena Viñas Rodríguez
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