Cuba não é, e não pode ser uma ameaça incomum e extraordinária à segurança nacional dos Estados Unidos. Cuba tem um profundo compromisso com a paz, afirmou o Ministro das Relações Exteriores, Bruno Rodríguez, em entrevista exclusiva à Prensa Latina.
Rodríguez, que deixou claro que “Cuba não é um inimigo dos Estados Unidos, nem quer ser”, respondeu a perguntas da agência de notícias ao finalizar dois dias e meio de trabalho em Nova York, onde apresentou a posição de seu país e denunciou a ameaça militar e o bloqueio energético em uma sessão formal do Conselho de Segurança da ONU, convocada pela presidência chinesa do órgão.
Com que base o governo dos Estados Unidos insiste nessa narrativa?
Quando o governo dos Estados Unidos usa esse argumento falacioso e ridículo da suposta ameaça, o que pretende é manipular a opinião pública americana, cubana e mundial.
O que deseja é tentar justificar uma política que é genocida, um crime contra a humanidade, uma forma de punição coletiva — tudo reconhecido pelo direito internacional. Tentam justificar um bloqueio de combustível que causa danos humanitários extraordinários e manipular a opinião pública para culpar o governo cubano pelos efeitos que precisamente e deliberadamente são causados pelas medidas que tomou.
É pura calúnia, uma fábula, mas deve ser levada a sério porque o imperialismo estadunidense é agressivo, e suas ameaças devem ser levadas a sério, e devemos sempre nos preparar para o pior cenário, mesmo que Cuba faça todo o possível para evitar uma escalada militar.
Cuba não representa uma ameaça ao governo dos Estados Unidos, nem à segurança nacional ou à política externa desse país, em primeiro lugar porque é uma pequena ilha, e os EUA são uma superpotência nuclear. Em segundo lugar, porque Cuba tem um profundo compromisso com a paz.
Faz parte dos princípios da Revolução Cubana; é um povo pacífico. É um país que sempre contribuiu para a preservação da paz e da segurança internacional, hemisférica e regional, e que deu contribuições muito importantes para a paz, como os processos de paz na Colômbia. Em Havana foi que os chefes de Estado e de governo de toda a região assinaram a proclamação de toda a América Latina e Caribe como Zona de Paz, uma das maiores contribuições do General de Exército Raúl Castro Ruz para a política externa da Revolução Cubana.
Essa proclamação consolidou-se como elemento essencial do direito internacional e é constantemente referenciada nos debates, narrativas e documentos adotados pelos Estados da região, na composição da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (CELAC) e em outros grupos regionais e sub-regionais.
Cuba não é um inimigo dos Estados Unidos, nem jamais pretendeu sê-lo. Não deseja sê-lo de jeito nenhum, em primeiro lugar porque existem laços profundos, afetuosos e fraternos entre o povo cubano e o povo dos Estados Unidos, e em segundo lugar porque há uma forte presença de cidadãos cubanos residentes nos Estados Unidos.
Além disso, a maioria dos americanos e cubanos residentes nos Estados Unidos sempre se posicionou a favor da normalização das relações entre os dois países, em oposição à hostilidade e ao bloqueio econômico e comercial imposto a Cuba.
Atualmente, a maioria dos americanos e cubanos nos Estados Unidos se opõe a uma aventura militar contra Cuba, que teria consequências humanitárias e de outras naturezas incalculáveis, e se opõem fervorosamente ao bloqueio energético que causa danos humanos extraordinários, sofrimento, privação e dor às famílias cubanas.
Como avalia o tratamento do tema Cuba na imprensa ocidental, a partir da crescente agressividade do governo dos Estados Unidos?
O governo dos Estados Unidos, historicamente, mas de forma muito aguda, agora desencadeou uma guerra não convencional contra Cuba. Refiro-me a uma guerra cognitiva, uma guerra cultural, uma guerra psicológica, tentando persuadir pessoas honestas nos Estados Unidos, cubanos e a comunidade internacional de que tem objetivos humanitários, que quer proteger o povo cubano, enquanto culpa o governo cubano pelas atuais dificuldades socioeconômicas.
Em outras palavras, tentam censurar a verdade, esconder a verdade, manipular informações, e para isso contam com fundos multimilionários e plataformas de tecnologia digital muito poderosas.
A maioria das plataformas tecnológicas que hospedam redes digitais e impulsionam o funcionamento da internet pertence a corporações americanas com laços especiais com o governo dos EUA, que as obriga e pressiona a usá-las como arma digital.
Uma característica da política deste governo durante este período tem sido a constante emissão de declarações públicas hostis, ameaçadoras e em tom de ultimato contra Cuba, tentando pressionar o governo e o povo cubano a fazer concessões inaceitáveis em questões que se enquadram exclusivamente no âmbito de nossos assuntos internos, soberania e autodeterminação.
A grande mídia tradicional dos EUA, que agora também é multimídia, exerce influência significativa na esfera das comunicações, e o governo dos EUA também possui enorme capacidade, por meio da propriedade privada das plataformas digitais mencionadas anteriormente, de manipular redes de maneira politicamente motivada.
É sabido que a imprensa estabelecida e as redes digitais têm aparência de democracia e liberdade que é totalmente falsa. Sabe-se que respondem a seus proprietários e respondem ao oligopólio americano, a esta plutocracia, e sempre agirão com base em seus interesses. Embora seja verdade que houve momentos em que a imprensa estadunidense agiu com mais independência, principalmente quando o povo americano está ciente da realidade, quando possuí algum nível de informação verdadeira, quando conhece ao menos uma parcela limitada da verdade e, portanto, não se deixa enganar pelo governo ou por suas políticas.
A outra característica desse período foi a pressão constante sobre a grande imprensa estadunidense e as redes digitais para publicar informações tendenciosas e manipuladas contra Cuba, a fim de amplificar as mensagens da narrativa hostil e mentirosa do governo americano.
Por exemplo, o observatório de mídia de Cubadebate realizou análises muito interessantes sobre esse tema e demonstrou as ligações e a coordenação entre o Departamento de Estado e alguns veículos de comunicação, como Axios, USA Today e Politico, justamente a serviço da agenda do Departamento de Estado contra Cuba.
E foi uma característica típica desse período também o vazamento malicioso, por parte do governo americano, de informações discutidas em conversas ou contatos diplomáticos que deveriam ser produtivos e discretos.
Posso afirmar, portanto, que existe de fato uma ameaça militar real, mas que a agressão cognitiva, cultural e comunicacional sempre esteve presente de uma forma ou de outra, embora tenha se intensificado e piorado a um grau extremo neste período recente.
O povo cubano não se deixa enganar facilmente, pois é altamente instruído e muito bem informado. Acompanha essas questões de perto, com interesse, de forma crítica e assertiva. Espero que o povo americano, especialmente os jovens americanos, e a opinião pública mundial não se deixem enganar por essa propaganda maliciosa e politicamente motivada do governo dos Estados Unidos, particularmente do Departamento de Estado.
Gostaríamos de ouvir seu comentário sobre a acusação do Departamento de Justiça contra o líder cubano Raúl Castro.
Eu trabalhava como Representante Permanente nas Nações Unidas em 24 de fevereiro de 1996, quando os aviões que violaram o espaço aéreo e a soberania cubana foram abatidos, e sou testemunha ocular dos eventos que ocorreram aqui nas Nações Unidas.
A acusação contra o General de Exército Raúl Castro Ruz é um ato infame, uma afronta ao nosso povo e à nossa dignidade nacional. O General de Exército Raúl Castro Ruz não é apenas um líder internacional reconhecido e o líder da Revolução Cubana, mas também uma figura histórica reverenciada e venerável.
Devo dizer que não vejo explicação para o fato de o governo dos Estados Unidos ter levado 30 anos para tomar essa medida caluniosa e insólita. Por que não o fizeram antes? Por que o fazem agora?
Em segundo lugar, é óbvio que essa decisão, que é inteiramente política, e não jurídica ou judicial, busca gerar pretextos adicionais para justificar a agressão militar contra Cuba, o bloqueio de combustível ou o endurecimento do bloqueio implementado nos últimos dias, como a aplicação de sanções secundárias.
Ou seja, sanções contra países, entidades, empresários e empresas de terceiros países com interesses nos Estados Unidos, mas que não têm relações comerciais com Cuba. Isso visa amplificar as táticas de intimidação que caracterizam este governo.
É uma manobra politicamente inescrupulosa, destinada a enganar as pessoas, principalmente os cidadãos americanos, e também a comunidade internacional.
Em terceiro lugar, trata-se de um ato ilegal, pois nem os tribunais dos Estados Unidos nem o gabinete do Procurador-Geral dos Estados Unidos têm jurisdição sobre eventos que não ocorreram em território americano ou sobre pessoas que não se encontram em território americano. Portanto, é também uma manobra ilegal e fraudulenta do ponto de vista do direito internacional e do direito nacional de praticamente todos os Estados, bem como do direito cubano.
Em quarto lugar, afirmamos categoricamente que a queda da aeronave ocorreu em consequência da cumplicidade das autoridades americanas com esse grupo que realizou atividades terroristas contra Cuba. Em particular, seu líder é um terrorista, participante direto de atos terroristas contra Cuba, que usou a suposta fachada humanitária para realizar atos terroristas e hostis contra Cuba.
Relembro que houve nada menos que 25 violações brutais do espaço aéreo cubano. Lembro-me das imagens de aviões sobrevoando Havana em altitudes muito baixas, chegando a lançar panfletos para a população. Lembro-me da indignação das pessoas nas ruas e da indignação dos diplomatas aqui em Nova York, que diziam: “Até quando se permitirá que essas pessoas violem a soberania cubana?!”
Isso também aconteceu — em particular — devido à cumplicidade das autoridades e das forças de segurança da Flórida. Eles sabiam, por meio de suas próprias fontes, que esses voos ocorreriam; poderiam ter impedido a decolagem dos aviões; sabiam que os planos de voo eram falsos, que foram alterados e que outras rotas foram declaradas.
O Departamento de Estado, e até mesmo algum de seus funcionários, participou diretamente desses atos. O presidente dos Estados Unidos havia dado garantias formais de que impediria a continuação dessas violações do espaço aéreo cubano.
O governo cubano publicou uma nota oficial alertando o mundo de que futuras violações do espaço aéreo seriam respondidas militarmente e que as aeronaves seriam abatidas.
O chefete daquela operação permaneceu voando atrás dos dois aviões que foram abatidos. Sabia sabia perfeitamente bem durante a operação, pois foi avisado por rádio e pelos sinais internacionais convencionais emitidos pelas aeronaves cubanas — que, a menos que deixassem o território nacional, seriam abatidos.
O que o chefete fez foi permanecer no espaço aéreo internacional e deixar os outros dois aviões avançarem, sabendo que seriam abatidos.
Por que o terceiro avião, que transportava o chefete dessa operação, não foi abatido? Por respeito ao espaço aéreo internacional. O governo dos Estados Unidos manipulou as informações sobre o lugar da queda, que, reitero, asseguro, estava no espaço aéreo e nas águas territoriais cubanas.
Assim que as aeronaves cairam, as autoridades americanas solicitaram imediatamente autorização para buscar sobreviventes e localizar os destroços. Essa autorização foi concedida de imediato.
E o local da busca ficava precisamente dentro das águas territoriais cubanas. Posteriormente, tentaram manipular o local da queda, enganar os especialistas da Organização da Aviação Civil Internacional (OACI) ao negar-lhes acesso às evidências. Foi-lhes permitido apenas ouvir uma gravação americana, sem poder analisá-la. Tentaram estabelecer as coordenadas do local da queda com base na posição de dois navios que ali se encontravam. Mais tarde, ficou claro que o diário de bordo de uma das embarcações havia sido adulterado.
Mas o governo americano poderia ter apresentado provas irrefutáveis do local da queda: seus dados de radar e satélite. Nunca o fizeram. Até hoje, nunca o fizeram, então por que esconder essa prova fundamental? Portanto, posso afirmar que, em todos os sentidos ético, político e legal, esse ato indecente e infame de apresentar acusações contra o General de Exército está fadado ao fracasso. E o que faz é fortalecer a resolução e a determinação do nosso povo de defender a Revolução e o líder tão querido por todos nós.
Em relação ao diálogo entre os Estados Unidos e Cuba, o que nos pode comentar?
Nesta fase, houve alguns contatos, algumas conversas com o governo dos Estados Unidos, como já foi noticiado.
Lamentamos a falta de progresso e a inconsistência na conduta do Departamento de Estado, que não adere a um padrão único. Ele se comporta de uma maneira em reuniões diplomáticas e, por outro lado, faz declarações hostis, agressivas e ameaçadoras constantemente.
Pretende usar ameaças militares, pretende emitir ultimatos pela imprensa — ou seja, o que não faz oficialmente nas negociações, faz através da mídia.
Constantemente alimenta a imprensa com narrativas maliciosas, enganosas e imprecisas e vaza informações tóxicas para redes digitais, tudo com o objetivo de confundir o povo americano, o povo cubano e a comunidade internacional.
Apesar desse comportamento, Cuba continuará tentando resolver os problemas bilaterais por meios diplomáticos e espera que os Estados Unidos demonstrem boa vontade e, na prática, seu desejo de avançar rumo a um melhor relacionamento bilateral.
Isso foi demonstrado no passado, quando os Cinco Heróis retornaram a Cuba, quando viagens individuais de cidadãos americanos ao nosso país foram permitidas e quando embaixadas foram estabelecidas, que é possível para ambos os países resolverem problemas bilaterais.
Isso goza de amplo consenso entre o povo cubano, nos Estados Unidos e é amplamente reconhecido pela comunidade internacional. Embora nenhuma medida concreta tenha sido tomada para aliviar o bloqueio na época, houve progresso em 22 áreas de cooperação que foram proveitosas para ambos os países. Cuba, por exemplo, possui tratamentos e medicamentos médicos de ponta que seriam proveitosos para os cidadãos americanos.
Por que proibir que cidadãos americanos viajem para o nosso país e formem uma opinião em primeira mão ao nos visitar?Por que não manter a cooperação em questões de saúde, científicas, culturais, acadêmicas e esportivas, bem como em questões ambientais e outras? Não há justificativa para isso além da hostilidade e da política de mudança de regime. que o governo dos Estados Unidos aplica. Historicamente, o Governo Revolucionário, o Comandante-em-Chefe Fidel Castro, o General de Exército Raúl Castro e o Primeiro Secretário e Presidente Miguel Díaz-Canel sempre se mostraram dispostos a dialogar com os Estados Unidos visando à resolução de problemas bilaterais e à busca de uma relação civilizada, apesar das diferenças entre os dois governos. Sempre se considerou que esse diálogo deve se basear unicamente em princípios universalmente reconhecidos, nos princípios do direito internacional e na Carta das Nações Unidas.
Deve ser sério, responsável, fundamentado no direito internacional, na igualdade soberana dos Estados, em condições de absoluta igualdade, com base no respeito mútuo, para benefício recíproco de ambos os países e, naturalmente, sem pré-condições ou interferências nos assuntos internos dos países.
Como a mensagem de Cuba foi recebida no Conselho de Segurança?
Foi uma reunião ministerial que abordou questões relacionadas ao direito internacional, ao multilateralismo e à ordem internacional, refletindo um amplo consenso global contra a guerra, em defesa da paz, contra medidas coercitivas unilaterais e em apoio ao direito ao desenvolvimento, ao direito à autodeterminação e ao direito à vida.
Foi uma sessão que reafirmou a centralidade das Nações Unidas na condução dos assuntos internacionais e na qual a supremacia do direito internacional foi afirmada contra as tentativas de impor outras regras ao sabor do imperialismo estadunidense ou de impor a doutrina totalmente ilegal e supremacista de impor a paz pela força e, no caso da nossa região, a Doutrina Monroe e seu novo corolário. Portanto, posso dizer que o debate foi positivo e intenso e que apoiou as posições que Cuba defende em relação a essas importantes questões.
O encontro ouviu atentamente a denúncia de Cuba e o apelo que nós, em nome do Presidente da República e do nosso Governo, fizemos à comunidade internacional, ao povo americano e, em particular, à sua juventude. Realizamos também cerca de vinte reuniões bilaterais com outros ministros de Relações Exteriores e chefes de Estado presentes. Além disso, tivemos a oportunidade de nos dirigir ao mundo, ao povo cubano e ao povo americano por meio de duas importantes redes de televisão dos EUA.
Considero que foi uma visita breve, intensa e produtiva, que ajudou a destacar as posições e as demandas de nossos povos em um momento particularmente crítico do conflito entre os EUA e Cuba.
Extraído da agência de notícias Prensa Latina
