Por Roberto Morejón.
O Peru, com oito presidentes em dez anos e em meio a uma apuração prolongada dos votos do primeiro turno das eleições presidenciais, enfrenta mais uma crise política e de credibilidade com o caso notório da compra secreta de aeronaves militares americanas.
O presidente interino do Peru, José Balcázar, criticou o processo clandestino de aquisição de uma frota de caças F-16 dos Estados Unidos por US$ 3,5 bilhões.
Em um país com profundas desigualdades sociais, seria mais apropriado destinar os recursos para atender a demandas sociais antigas.
Mas, desde o governo da ex-presidente Dina Boluarte até o do presidente mais recentemente deposto, José Jerí, negociações secretas ocorreram para a aquisição dos aviões de guerra.
Balcázar, nomeado para substituir Jerí, preferiu adiar a compra da aeronave até depois da posse do próximo chefe de Estado, após o segundo turno das eleições marcadas para 7 de junho.
No entanto, o primeiro pagamento de US$ 462 milhões já foi efetuado, após negociações com os Estados Unidos, facilitadas pela pressão do embaixador Bernie Navarro.
O próprio Balcázar denunciou que, durante a presidência de José Jerí, outras ofertas de venda da Suécia e da França foram rejeitadas em favor dos Estados Unidos.
Segundo o presidente interino, o governo peruano foi excluído das negociações finais até 20 de abril.
Nessa data, foi tomada a decisão final de compra, e Balcázar sugeriu que o sigilo em torno do processo reduziu a eficácia dos mecanismos de fiscalização habituais.
A controvérsia foi tão intensa que dois ministros, contrários à posição de Balcázar, renunciaram.
O embate entre Balcázar e os ministros que deixaram o cargo, juntamente com a aquisição clandestina da eraonave, agravou uma situação já tensa.
Mais uma vez, fica evidente o enfraquecimento da instituição presidencial no Peru, onde o Congresso, dominado pela direita, determina os mandatos presidenciais.
O Peru também surpreende porque o Júri Nacional Eleitoral anunciou uma auditoria do primeiro turno das eleições gerais de 12 de abril.
Em meio a relatos de atrasos e dúvidas sobre a apuração dos votos, apenas 97,5% das cédulas foram contabilizadas, o que deixa incerto quem disputará o segundo turno em junho contra a candidata de direita Keiko Fujimori.
Talvez a polêmica em torno dos aviões seja o primeiro gole amargo que o próximo presidente terá de tragar.
